quarta-feira, 25 de novembro de 2009

De Passagem

Sentado no canto do vagão, a mochila sobre suas pernas, o lombo curvo, corado. Olhos atentos à caderneta dividida por seções, na forma de tirinhas, contendo as letras do alfabeto. Com a caneta bic, de cor azul, ele sentencia num rabisco ondulatório quem, provavelmente, não receberá mais o seu telefonema. O homem sente dificuldade com as palavras. Cada nome, aliás, muito bem escrito, com letra de professora primária – que dá direito a rebuscar o H, como fazia quem escrevia com a pena – ganha um sussurro pausado, acusando-lhe a figura de neófito no universo da leitura.
Pendendo a cabeça de um lado ao outro, em sinal negativo, o primeiro a sair da lista, na agenda telefônica, é Augusto e a Irmã Maria, que aparece de chofre na letra B, ganha destaque ao ser sublinhada.
O esforço que se faz ao passar os olhos sobre aqueles símbolos e a eles atribuir-lhes um significado obriga espasmos recorrentes, quando suspira profundo. Descansa as mãos grossas e sujas sobre o caderno contendo os nomes de quem por algum motivo colhera números e, pela janela, observa as pessoas, aos tantos, transitarem por aquele local de passagem.

Continue lendo >>

  ©Template by Dicas Blogger.

TOPO