segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Dois Meninos Olham O Céu

Enquanto a última palavra santa atravessa a extensa catedral e alcança os fieis, aglomerados a porta do templo, o guri caminha por ali até se ajeitar na beirada da escadaria, aonde a luz dos postes não chega e, apesar de alto, ele passa despercebido. A barriga grita o vazio, os carros rosnam impaciência e as pessoas circulam, simplesmente, indiferentes. Meio torpe, passeia os olhinhos atentos por toda parte, ainda que nada veja, mas essa inata mania infantil de fazer de cada cena a inauguração de um olhar torna-o membro do contexto. Observador participante do caos, ora é agraciado com moedas - já que as amêndoas oculares são um flerte irrecusável à compaixão de alguns transeuntes. Filho da rua, autor da própria história - apesar dos parcos anos - faltando o pão, alimenta-se de sonhos. Quando a cidade não mais trepida, barulhenta feito uma siderúrgica, ele se lança ao alto e, intrigado como aquele astrônomo procurando no céu as digitais de Deus, tenta encontrar um ínfimo vestígio do Criador, pois bastaria saber que ao menos Ele zela o seu sono. O teto do mundo é imensa massa cinzenta, porém, uma brecha entre as nuvens deixa vazar o clarão da lua, cuja luz branca enternece e faz repousar o menino, até o sol dar as caras novamente - recobrando-lhe a crueza da realidade.


Na outra ponta do mapa, incrustado na mata, corre serelepe um curumim de mesma idade, seminu. Seus passinhos afoitos, meio cambaleantes, percorrem a tribo da primeira à última oca. A barriga murmura a digestão de uma ceia a contento: peixe fresco, farinha, frutas colhidas do pé, pelas mãos das índias. Aos tantos, seus pares reúnem-se em roda, e dançam; e cantam; e riem. Ele observa. Há muito que aprender de sua cultura, mas a curiosidade é um grito mudo de seus olhinhos de jabuticaba e, percebendo-lhe a inquietação, ora ou outra, o indiozinho é agraciado com um cafuné. Filho da floresta, a sua chegada já havia sido antecipada pelos astros. E é deste mistério que ele se embebeda, ao deitar na relva o corpo tecido de urucum, junto do pajé - que lhe descortina o mapa celeste. Pela lua, lê-se a maré. As constelações preveem a boa temporada para o plantio, e uma significante mancha escura simboliza o Deus Maior, que surge para anunciar a primavera. Esta aura mística, o céu esparramado e a serenata dos bichos o fazem repousar, até o sol despertar no horizonte - recobrando-lhe a postura de menino, senhor das descobertas.

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